Fracasso escolar – Entrevista

Fracasso escolar – Entrevista

Entrevista para a revista de notícias G1.

20/05/2011.

 

‘Fracasso escolar é o fracasso do sistema
educacional’, diz especialista.

Pesquisa aponta que só 25% saem da escola sabendo ler e escrever.

Psicopedagoga Nadia Bossa participa de grupo de atendimento no HC.
Paulo Guilherme Do G1, em São Paulo.

 

A psicopedagoga Nadia Aparecida Bossa fez
estudos com estudantes da rede pública de São
Paulo.

‘Doutora, meu filho vai à escola todo dia, mas ele não consegue aprender nada!‟ Ouvir queixas como essa
faz parte da rotina do grupo de pesquisa de neuropsicologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo onde trabalha a psicopedagoga Nadia Aparecida Bossa. Ela recebe
diariamente crianças e adolescentes encaminhados por escolas da rede pública com dificuldades de
aprendizagem. Famílias de baixa renda levam os estudantes que não conseguem ler, escrever ou fazer as
quatro operações matemáticas para que os especialistas consigam descobrir o que está atrapalhando o
desenvolvimento cognitivo do aluno. “A demanda é muito grande”, diz a especialista.

A dificuldade em aprendizagem muitas vezes vai além dos problemas da criança. O fracasso escolar, na
avaliação da doutora Nadia, é o fracasso do próprio sistema de ensino. Com mestrado em psicologia da
Educação pela PUC de São Paulo e doutorado em psicologia e educação pela USP, a psicopedagoga
coordenou uma pesquisa feita durante cinco anos nas escolas públicas de São Paulo. O grupo de
pesquisadores buscava saber as causas da dificuldade de aprendizado escolar para estabelecer prioridades
de mudanças na política educacional. O estudo revelou que de cada quatro alunos que concluem o ensino
fundamental, três saem do ensino fundamental sem saber ler, escrever e fazer as quatro operações
matemáticas (adição, subtração, divisão e multiplicação).

 

Nadia Bossa vai apresentar na 18ª Educar, o congresso internacional de educação, aberto nesta quarta-feira
(18), no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo, alguns resultados de sua pesquisa em uma
palestra sobre o fracasso escolar.
Em entrevista ao G1, ela diz que os problemas de aprendizagem revelam uma “infecção” no sistema
educacional que, como tal, precisa ser tratado.

 

O que a neurociência nos ensina sobre o aprendizado?

O ensino fundamental acontece numa fase da vida da criança que biologicamente temos todas as
possibilidades de aprendizado. Uma vez superada esta idade tudo o que se construir não terá o efeito na
constituição cerebral. Estamos perdendo o melhor momento do desenvolvimento da criança, que é dos 4
aos 14 anos. Se isso não acontece na idade adequada, estamos limitando a inteligência do povo. Se não
usarmos os nossos neurônios nas atividades requeridas pelas atividades acadêmicas estas ligações não vão
acontecer, e na vida adulta vamos ter de conviver com uma população com capacidade de raciocínio
limitada.

 

Como qualificar um fracasso escolar?

 

A autonomia intelectual que a escola deveria garantir ao aluno não existe. A gente observa que os alunos
concluem ensino fundamental e médio sem condições de fazer a leitura de um texto simples. Eles não
compreendem as quatro operações fundamentais de forma que elas possam ser utilizadas na vida cotidiana.
O que a gente aprende na escola nada mais é que a vida escrita em uma outra linguagem. Não saber
interpretar este esquema de representação desvincula a escola da vida. O que se aplica na escola não se
aplica na vida, o que se aprende na vida não serve para interpretar na escola. Está aí o grande fracasso. E
isso piora a cada ano. Quando se eliminou a questão da reprovação, os alunos e professores não tinham
mais instrumento numérico para avaliar a questão da aprendizagem, a coisa foi se agravando. Tirou-se a
reprovação e não se colocou outro instrumento. Quem concluiu o ensino fundamental em grande parte sai
da escola sem sequer saber ler e operar de verdade as quatro operações fundamentais. Então podemos dizer
que o fracasso escolar é o fracasso do sistema educacional. É um sintoma que revela que a educação
brasileira vai de mal a pior.

 

E de quem é a culpa pelo fracasso? Do aluno, da escola ou dos pais?

Em vez de fracasso, prefiro dizer que a responsabilidade pelo sucesso de uma criança na escola é dos
nossos governantes e das famílias naquilo que teriam como direito de exigir dos governantes.

 

Quais as principais causas para o fracasso de um aluno na escola?

Um grande número de alunos que estão concluindo o ensino fundamental sem condições de ler e escrever e
operar as quatro operações tiveram interferência por variáveis que vão desde a qualidade do ensino, e esta
questão é a primordial, aliado à desestrutura familiar, muito mais decorrente de fatores socioeconômicos e,
em uma escala menor, de problemas de saúde física, emocional. Problema emocional, cognitivo e
pedagógico tudo misturado. Para um aluno ter um desempenho razoável na escola são necessários desde a
alimentação saudável até ter a condição emocional e cultural para levar a escola com a devida seriedade.
Temos crianças mal alimentadas, famílias desestruturadas, um tremendo equívoco da função da escola pela
população. Muitas vezes nem mesmo os professores sabem qual é o objetivo e o porquê de ter
determinados conhecimentos. Família e estudantes também não sabem para que serve todo aquele
conteúdo. A pessoa se pergunta: “Por que preciso saber história, geografia, equação?”. São tantos outros
apelos na vida, existem tantas outras coisas interessando as crianças e adolescentes, que fica difícil para
escola e o conhecimento tomar um lugar de destaque na mente do jovem.

 

A parceria entre escolas e família é fundamental. Mas como uma escola pode ser parceira de todas as famílias de centenas de alunos?

 

A escola deveria se aproximar mais das famílias. É preciso que alguém ensine porque os pais precisam
respeitar o professor, dar a devida importância para as tarefas escolares, ensinar os filhos a terem cuidado
com o patrimônio das escolas, e sobre a importância dos livros. Se os pais não sabem, eles não vão saber
por que fazer e como fazer. Muitas vezes o professor diz para os pais que o filho está tendo problemas de
aprendizagem. Mas os pais não sabem o que fazer. Um responsabiliza o outro. Além disso, as políticas
educacionais vêm de cima para baixo sem uma base segura. Quem ocupa os cargos mais importantes
politicamente na educação nunca é um educador, mas um advogado ou economista, que certamente não
tem a sensibilidade, percepção e visão de um educador.

 

E o professor, o que pode fazer?

Percebemos que muito professor não tem o devido conhecimento na área à qual ele é formado e devia ser
especialista. E, para piorar, tem a questão da inclusão. Eles têm dentro de sua sala de aula os alunos de
inclusão portadores de algum tipo de transtorno, que têm direito à educação. Mas o professor precisa de
assistência para isso, e muitas vezes isto não acontece. E além do conteúdo didático o professor precisa
tratar de temas transversais (como bullying, alimentação saudável, diversidade, violência no trânsito), que
teoricamente teriam de estar preparados para isto também.

 

Um projeto de lei quer aumentar a carga horária escolar em mais 20%, e exigir frequência mínima de 80%. Na sua opinião isso vai melhorar a educação? O problema afinal é quantidade ou qualidade do ensino?

O problema é a qualidade. É muito bom que se aumente a quantidade de horas, mas isto deveria acontecer
depois de melhorar muito a qualidade do que se ensina a escola. Do que adiante mais tempo para ficar na
escola sem nada aprender? O professor fica mais tempo envolvido em uma tarefa para a qual ele está
preparado.

 

Qual seria o caminho para melhorar este quadro?

A primeira coisa é fazer este alerta, conscientizar o povo usando todos os espaços para fazer um retrato
verdadeiro da situação da nossa escola e identificando alguns dos maiores problemas quem sabe se
consegue mudar alguma coisa. Se o fracasso escolar é um sintoma dos nossos tempos do nosso país e este
sintoma, como uma febre, indica uma infecção, também indica uma doença do nosso sistema educacional
que se não tratada em breve vai inviabilizar a possibilidade de crescimento do nosso país. O que se estuda
sobre educação e o que se pesquisa nunca sai de dentro da universidade porque quem ocupa os postos de
grandes tomadas de decisões não são os grandes estudiosos e pesquisadores.

 

Clique aqui para ler o arquivo original da entrevista.